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Indústria: têxteis sobre rodas

A indústria têxtil paulista está presente em diversos setores da economia brasileira e é de fundamental importância para a composição de vários produtos. São tecidos, fios e linhas, entre outras, que compõem uma grande gama de produtos para as mais diferentes utilizações. Entre os setores que mais demandam dos têxteis está, por exemplo, a indústria automobilística. Cerca de 45% dos materiais no interior dos automóveis é composto de produtos têxteis.

Mesmo sendo uma das mais afetadas pela crise econômica mundial, com queda de 14% da sua produção física, a indústria automobilística ganhou novo fôlego com o incentivo fiscal do governo federal, que reduziu o Imposto sobre Produção Industrial (IPI) sobre carros novos, numa tentativa de recuperar as vendas das montadoras, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Frente à redução do IPI, setores que fornecem materiais para a produção dos veículos, como os têxteis, também se beneficiaram.

Para Devandi Vendramine, diretor de marketing e vendas da Kordsa, fornecedor de fios de poliéster de alta tenacidade que serve de matéria prima para a produção de pneus, a redução do imposto foi positiva, pois não deixou com que suas vendas fossem tão afetadas. “A redução foi muito positiva, mas o impacto na vendas dos pneus é limitado, já que apenas influenciou as compras das montadoras e as vendas da maioria dos fornecedores não é só para montadoras”, comentou o gerente. “Mais de 30% das vendas da nossa empresa vai para montadora. E o restante? A redução do IPI apenas evitou que não houvesse uma queda tão brusca na cadeia de fornecimento, mas nossa indústria não trabalha apenas para montadoras”, acrescentou. O filamento de poliéster passa pelo processo de fiação e tecelagem, compõe o esqueleto do pneu, sendo a primeira fase da fabricação dos produtos, seguido pelos compostos de borracha e pelo agente aglutinante, chamado de negro de fumo.

Francisco José Ferraroli dos Santos, presidente da Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas (ABRAFAS), acredita que as fibras artificiais e sintéticas deram novos ares à indústria têxtil. “Essas fibras trouxeram novos horizontes aos têxteis, principalmente ao uso de novas tecnologias através das fibras químicas”, afirmou. A ABRAFAS foi criada em 1968 como entidade representativa dos produtores de fibras manufaturadas, é quem congrega as empresas envolvidas na produção, transformação e comercialização de fibras artificiais e sintéticas, responsáveis pela quase totalidade do valor global da produção dessas fibras no país.

Outra importante participação da indústria têxtil nesse representativo setor da economia fica no interior dos automotivos. São revestimentos de bancos, carpetes, estofamentos, cintos de segurança, costuras, linhas, cortes e os “air bags”. “São fios específicos para cada parte do carro. A costura dos bancos e os tecidos são desenvolvidos para suportar movimentos bruscos, altas temperaturas, sempre preocupados com dois fatores principais, que são a durabilidade da costura e do tingimento aplicados a essas peças”, explicou Alfredo Bonduki, presidente da empresa Bonfio, que tem suas unidades de produção no Estado de São Paulo.

Para a produção automotiva, são desenvolvidos produtos altamente tecnológicos, que atendem aos padrões mundiais de qualidade. “De nada adianta fornecer um produto que terá baixa rentabilidade. Alta tecnologia é a chave para o fornecimento desse setor. São fios especiais, de alta tenacidade, exclusivos para a indústria automotiva”, completou Bonduki.

Para Sylvio Napoli, gerente de infraestrutura e capacitação tecnológica do Sinditêxtil-SP, o setor automotivo é um dos grandes fatores que incentivam o desenvolvimento tecnológico da indústria têxtil. “Hoje, a tecnologia têxtil avança muito no sentido de tecidos automotivos, que é o nicho de produção mais importante em agregação de valor em aspectos de nanotecnologia. A preocupação com repelência de odores, água, mofo ou qualquer aspecto que degrade o interior dos automóveis é desenvolvido minuciosamente para aquele determinado fim”, afirmou o gerente. “E não só isso, o mercado pede maior tecnologia e durabilidade e a indústria têxtil atende com exatidão essa demanda”, acrescentou.

“Essas empresas fabricantes de artigos para a indústria automotiva estão concentradas no Estado de São Paulo, o que mostra a importância da participação paulista para o mercado interno têxtil e no desenvolvimento do setor em âmbito nacional. A força da indústria paulista é a grande alavanca do nosso setor”, afirma Rafael Cervone Netto, presidente do Sinditêxtil-SP. “Representamos 30,5% do PIB têxtil nacional, a maior fatia do mercado”, complementa.

Inovação

A BMW, reconhecida montadora alemã de veículos de luxo, lançou o BMW GINA Light Visionary Model. O nome diz respeito à capacidade do carro de modificar sua carroceria, que significa “Geometry and Functions In “N” Adaptions”, ou Geometria e Funções em N Adaptações, transformando sua carroceria através da utilização de tecido.

Sob a superfície do automóvel há armações de metal que se movem por meio de dispositivos e sistemas elétricose eletro-hidráulicos. Em situações de baixa luminosidade, os faróis em dupla parábola abrem-se como pálpebras, mudando o contorno da dianteira. Na parte traseira, as luzes da lanterna podem ser avistadas através do tecido translúcido. O GINA é apenas um carro conceito e sua produção em série, ou até mesmo segmentada, não é viável.

 “Air Bag” impulsiona têxteis

A indústria têxtil brasileira está prestes a ganhar uma nova frente de trabalho, tanto na produção quanto no desenvolvimento tecnológico.  Aprovado pela Câmara dos Deputados, em Brasília, no dia 18 de fevereiro, o Projeto de Lei número 1825/07, torna obrigatória a instalação de “air bags” em carros novos e veículos importados no Brasil. Já sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a lei está sendo regulamentada pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) e começa a vigorar a partir de março de 2014. A lei torna obrigatório que os veículos saiam de fábrica com os “air bags” dianteiros e com freios ABS.

Segundo um estudo do instituto de segurança dos EUA, o dispositivo de segurança diminui em 59% o risco de ferimento nos acidentes de colisão frontal. Mesmo assim, atualmente os “air bags” instalados nos carros brasileiros são importados. Realidade que está com os dias contados.

Para Renato Boaventura, diretor de negócios de fibras da Rhodia, já há tecnologia nacional que atende aos padrões mundiais de produção do equipamento de segurança. “Já desenvolvemos os fios que fazem a costura da bolsa de ar e esses fios são tão bons e resistentes quanto os importados”, comentou o diretor. O fio para costura do ”air bag” é de poliamida 66.

 No Brasil, apenas são feitos os cortes e a costura do equipamento, sendo a bolsa de ar importada. “Esse é mais um nicho de trabalho, mais uma oportunidade de crescimento e fortalecimento da indústria nacional. Viabilizar a produção de todo o equipamento aqui no Brasil é essencial para fortalecer a cadeia têxtil nacional. A Rhodia já investiu no desenvolvimento da bolsa de ar”, acrescentou Boaventura.

A produção dessas bolsas ainda não foi viabilizada no País devido à baixa demanda, mas em 2014 é esperada a produção de quatro milhões de automóveis, o equivalente a oito milhões de “air bags”. São 400 mil metros de tecidos e cerca de 80 toneladas de produtos têxteis.

Sylvio Napoli, gerente de infraestrutura e capacitação tecnológica do Sinditêxtil-SP, acredita no potencial tecnológico da indústria têxtil paulista e em sua grande força para o fomento de novas áreas de participação econômica. “Há alguns anos participo da indústria têxtil, principalmente paulista, e sei que aqui temos material e tecnologia para entrar de cabeça nesse novo mercado, embasados com anos de constante desenvolvimento e inovação, a fim de posicionar toda a cadeia têxtil nacional”, afirmou o gerente.

Com a obrigatoriedade dos freios com ABS e dos air bags, o custo desses itens nos carros nacionais pode cair cerca de 30% em pouco tempo. A aplicação obrigatória dos equipamentos não será de uma só vez, e vai obedecer a um cronograma que obriga o aumento de sua aplicação. Em 2010, por exemplo, 8% dos carros novos terão de sair das fábricas com os dois itens e até 2014 os itens devem ser de linha.