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08/03/2007 - PAC desanima indústria
têxtil
Nem isso nem panos quentes. O plano,
costurado entre vários ministérios,
foi considerado decepcionante pela
indústria têxtil, que
não enxerga entre as medidas
do PAC qualquer resultado positivo
para o setor.
"Não resta dúvidas
de que investimento é mais
do que necessário no Brasil.
O País perdeu o bonde e tem
de tirar o atraso. Mas o PAC não
tem um único item que nos anime
e nos permita vislumbrar o crescimento
da indústria têxtil nacional",
critica Rafael Cervone Netto, presidente
do Sindicato da Indústria de
Fiação e Tecelagem do
Estado de São Paulo (Sinditêxtil-SP).
"O programa não contempla
nada do que o setor têxtil necessita",
faz coro Juliano Carlos Renault, diretor
da Fábrica de Tecidos Carlos
Renault S/A, com sede em Brusque (SC)
e uma das mais tradicionais do País.
"Por ser programa de aceleração,
não pode se concretizar sem
infra-estrutura, mas é extremamente
tímido; falta todo o resto",
analisa Cervone Netto. Ele observa
que o PAC atira em várias frentes
sem mirar nos principais alvos visados
pelo setor têxtil: a elevada
carga tributária e a desleal
concorrência dos produtos estrangeiros.
"Não temos receio de
competir com qualquer país.
Entretanto, precisamos de isonomia
competitiva. Para isso o Brasil tem
de diminuir a carga tributária
e fazer nossa defesa comercial. E
isso passa pelo ataque. Primeiro,
é necessário que se
faça acordos comerciais bilaterais
com os principais clientes, a Europa
e os Estados Unidos, mas o governo
brasileiro se recusa a finalizar esses
acordos, insistindo na negociação
em bloco", diz. "A Colômbia,
por exemplo, fez acordos comerciais
bilaterais e o Brasil não faz
por pura ideologia contra os Estados
Unidos e a Comunidade Européia".
Sem salvaguardas comerciais, segundo
Cervone Netto, um terno chinês
entra no Brasil, por US$ 0,23 a unidade,
e a calça feminina de lã
por US$ 1,14 o quilo. "Como isso
é possível se na Europa
a lã em fardo custa US$ 8 o
quilo?", questiona.
Além da importação
sem sobretaxa de produtos principalmente
chineses, a indústria brasileira
ainda enfrenta a entrada ilegal de
tecidos estrangeiros. "A ilegalidade
faz o setor sofrer mais ainda",
destaca Juliano Renault. Ele sugere
que o governo limite a quatro o número
de portos de entrada dos têxteis
estrangeiros como forma de aumentar
o rigor na fiscalização.
Cervone Netto concorda. "Hoje
tem empresa de Fortaleza (CE) desembaraçando
produtos da China em Sorocaba (SP)",
revela. Para ele, essa estranha logística
demonstra a existência de brechas
que facilitam a ilegalidade. A saída
sugerida é controlar melhor
a entrada desses produtos no País,
hoje feita por meio de 20 portos,
além de 60 portos secos.
A falta de medidas específicas
para o setor no Programa de Aceleração
do Desenvolvimento também decepcionou
o Pólo Têxtil de Americana,
o maior da América Latina,
com 600 indústrias instaladas
naquele município paulista
e nas cidades vizinhas de Santa Bárbara
d'Oeste, Sumaré e Nova Odessa.
"Mesmo se o PAC der certo, trará
resultados ínfimos para o setor
têxtil", acredita Fábio
Beretta Rossi, presidente do Sindicato
da Indústria de Tecelagem de
Americana e Região. "O
Programa privilegia setores como de
informática, da TV digital
e da construção civil
e esquece o setor têxtil, que
é o segundo maior empregador
do País", reclama. No
segmento da indústria de transformação,
o setor emprega 1,65 milhão
de pessoas, número superado
apenas pelas indústrias de
alimentos e bebidas, segundo dados
do Sinditêxtil-SP.
"O governo diz que somos um
segmento importante, mas não
há nenhuma ação
prática para nos apoiar",
desabafa Cervone Netto. "No encontro
que tivemos com o presidente Lula,
em maio do ano passado, ele nos prometeu
pessoalmente criar a Secretaria de
Desenvolvimento e Defesa da Indústria
Têxtil, mas ficou promessa",
lembra Beretta Rossi. "Agora,
com o PAC, era o momento político
ideal para agir", frisa. "Há
um erro de conceito no PAC que fará
o Brasil regredir 50 anos", avalia
Carlos Kanadani, diretor comercial
da Suape Têxtil. "Quem
visa ao crescimento econômico
busca dinamizar os setores que geram
empregos, mas o programa anunciado
pelo governo atende somente os setores
de exportação de básicos",
complementa. "O Brasil está
na contramão, penalizando os
setores que geram empregos. Deixa
de gerar postos de trabalho pelos
setores manufaturados enquanto a exportação
cresce baseada em matérias-primas,
o que é um enorme retrocesso".
Sem medidas específicas para
o setor, a indústria nacional
encolhe como um tecido de péssima
qualidade. O Pólo Têxtil
de Americana, por exemplo, registra
queda de 5% em sua produção
nos últimos três anos.
Em 2004, produzia 160 milhões
de metros lineares de tecidos por
mês. No ano passado, esse número
não passou de 140 milhões
de metros lineares. Em janeiro de
2005, tinha 35 mil postos de trabalho
preenchidos. Hoje são 30 mil.
O Programa de Aceleração
do Crescimento, na avaliação
do setor, não sopra para longe
a tempestade que se anuncia. Incapaz
de competir com os produtos importados,
situação estimulada
pela valorização cambial,
a indústria têxtil pode
ser obrigada a fazer 260 mil demissões
nos próximos três anos,
segundo previsão do Sinditêxtil-SP.
"Vamos assistir um processo de
emigração de empresas
brasileiras", adverte Cervone.
"Nos próximos 12 meses,
haverá investimos de US$ 40
milhões da indústria
têxtil nacional fora do Brasil.
Em busca do acesso ao mercado internacional,
os empresários brasileiros
estão concretizando fusões
com empresas americanas e européias",
afirma.
"O Brasil está gerando
empregos na China e destruindo a indústria
nacional", sintetiza Kanadani.
Para o diretor da Suape Têxtil,
o PAC deixou de considerar algumas
condições fundamentais
para alavancar o crescimento econômico
dos setores de empregos. Ele cita,
por exemplo, a prática das
altas taxas de juros. "Isso atrai
o capital especulativo pelo excesso
de liquidez mundial, gerando uma taxa
de câmbio com o real muito valorizado,
o que inibe a exportação
de produtos manufaturados brasileiros".
Destaca, ainda, o aumento nos custos
da produção, lembrando
que a tarifa de energia elétrica
subiu 387% nos últimos 12 anos,
comprometendo a competitividade do
produto nacional no mercado externo.
Todo o quadro poderia ser revertido
com uma política mais específica
para o segmento e adoção
de medidas protecionistas, negociações
bilaterais, diminuição
da carga tributária e desoneração
da folha de pagamento, antigas reivindicações
da indústria têxtil nacional.
"Apenas com a adoção
de salvaguardas, em dois meses nosso
pólo criaria cinco mil empregos
diretos", garante Fábio
Beretta Rossi.
Com o PAC, o governo definiu a linha
que o País pretende seguir
para crescer 5% ao ano. Falta, agora,
costurar as medidas que a indústria
têxtil para que ela também
saia bem no retrato do desenvolvimento.
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