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Política Econômica: o limite do câmbio

É inegável que estão se desenvolvendo na economia brasileira forças dinâmicas capazes de impulsionar o crescimento do PIB para níveis elevados em 2010. Uma grande dúvida quanto à efetivação da retomada do nosso crescimento está na recuperação das economias centrais. A observação dos resultados do PIB dos países mais avançados não deixa dúvida de que, por enquanto, o melhor desempenho deveu-se aos fortes estímulos monetários e fiscais aplicados pelas economias. Isso não é ruim, mas daí identificar sinais inquestionáveis de recuperação econômica mundial, vai uma distância muito grande.

Do lado brasileiro, o desenrolar dos acontecimentos parece bem melhor. A massa de rendimentos vem sendo preservada e, no crédito, o receio de um forte aumento da inadimplência, que levou a uma grande retração do crédito novo, não se confirmou. Isso abriu caminho para que os financiamentos voltassem com força já no segundo trimestre desse ano. O crédito para pessoas físicas recuperou-se antes, mas nesse final de ano será a vez do retorno dos financiamentos para as empresas.

Já está delineado o percurso da recuperação da economia brasileira no ano que vem, caso prevaleça a melhora da situação internacional. Ela terá no mercado interno consumidor, e não no mercado de exportação, a sua base de apoio. Muito embora o eixo da evolução econômica prevista seja o mercado doméstico, isso não significa dizer que a competitividade do produto nacional deva merecer um papel secundário ou de segundo plano, pois para alcançar o crescimento econômico sustentável de longo prazo será necessário em algum momento que a liderança do crescimento da economia passe do consumo para o investimento ou para as exportações, ou ainda uma combinação de ambos.

É plenamente reconhecido que os fatores de competitividade micro e macroeconômico de um país não se resumem em uma taxa de câmbio subvalorizada. A crise deixou transparente que há um déficit de competitividade na economia brasileira, ou, pelo menos, em vários de seus segmentos produtivos. Isso em grande parte decorre de fatores sistêmicos, como os juros muito altos do crédito, os tributos elevados e incorretamente cobrados, a infraestrutura ruim e cara.
Há ainda um déficit de inovação empresarial. Se corrigidos por uma competente reunião de políticas, esses fatores impulsionarão a capacidade do produto produzido domesticamente de concorrer no mercado interno com o produto importado e disputar fatias maiores do mercado de exportação mundial.

Com isso poderão compensar, ao menos em uma parcela expressiva, uma valorização da moeda tal qual ocorre no presente momento. Mas são avanços cuja obtenção demandará muitas difíceis ações do governo atual e do próximo governo, e levará tempo. A dimensão tempo é decisiva para a competitividade econômica. Não se pode combinar a ausência ou deficiência dos fatores sistêmicos de competitividade com câmbio altamente sobrevalorizado, sob pena de se gerar um estímulo redobrado ao produto produzido no exterior e injustamente retirar capacidade de abastecimento de mercados externos, e mesmo internos, ao produtor nacional. Isso reduz o potencial de crescimento econômico.

Que ocorreria alguma apreciação do Real com a relativa normalização dos mercados financeiros internacionais que se observa nos últimos meses em função de um quadro mais favorável da economia mundial, isso não se discute. Mas daí se chegar a uma situação em que a cotação do dólar no fechamento do ano passado (R$ 2,337) era 34,4% superior à cotação do último fechamento (dia 9 de outubro, R$ 1,739), com clara tendência de que se aprofunde ainda mais, é um exagero que já deveria ter levado as autoridades monetárias a desenvolver uma intervenção mais ativa no câmbio do que o padrão de intervenção atual que se pauta por evitar as flutuações excessivas do valor externo da moeda, porém sem alterar a sua tendência.

Entre as ações e seus resultados no caso dos fatores sistêmicos de competitividade; entre o incentivo à inovação e a maior capacitação tecnológica dos setores produtivos nacionais a variável de curto prazo que mais define a capacidade de concorrência do produto brasileiro, a taxa de câmbio, deve estar em linha com o mínimo de preservação dos custos da produção interna. Esse deveria ser um objetivo a ser levado em conta pela política monetária e cambial. Há um limite para a valorização excessiva da moeda.

Fonte: Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Econômico - IEDI