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Exportação industrial cria menos empregos

João Guilherme Sabino Ometto*

A queda das exportações brasileiras de manufaturados deverá impedir a criação de 538 mil postos de trabalho em 2010. A estimativa consta de estudo da Fiesp que estabeleceu uma balança de empregos vinculada ao comércio exterior. Seu déficit, exclusivamente na indústria, foi de um milhão de vagas em 2009 e deverá alcançar 1,56 milhão no final deste ano. Os dados refletem o saldo negativo da balança comercial do setor, que deverá fechar 2010 em cerca de US$ 59 bilhões, contra US$ 36,5, em 2009.

Essa performance negativa também terá forte impacto no cômputo geral do balanço de empregos ligados à totalidade do comércio exterior brasileiro, cujo saldo positivo cairá de um milhão de vagas, em 2009, para 706 mil, este ano. Ou seja, os resultados somente não são dramáticos para a economia nacional porque, ao contrário da manufatura, o comércio exterior de produtos básicos deverá apresentar significativa compensação, resultando em números gerais positivos. Quanto ao valor, em 2010 as exportações gerais do País deverão crescer 27% e as importações, 39% (grande parte deste aumento deve-se aos manufaturados).

Estima-se que, em 2009, o número de empregos ligados às exportações totais do País tenha sido de 5,3 milhões de pessoas ocupadas. Isto significa 35 mil postos de trabalho para cada bilhão de dólares exportado. Em 2010, dada a projeção de alta de 26,9% no valor exportado, calcula-se que o número de empregos ligados às exportações aumente cerca de 14,2%, chegando a 6,1 milhões de pessoas ocupadas. No entanto, estamos contribuindo para criar mais emprego e renda em outros países.

Obviamente, deve-se enfatizar e valorizar o bom desempenho dos produtos básicos e commodities no comércio exterior. No entanto, é lamentável constatar a queda dos industrializados. Em 2000, cerca de 58,4% das vendas externas eram de manufaturados, parcela reduzida para 45% em 2009. No mesmo período, os produtos básicos aumentaram sua participação de 23,5% para 40,6%.

A queda das vendas externas de manufaturados reflete-se no nível de emprego ligado ao comércio exterior. O número de postos de trabalho por bilhão de dólar exportado de bens desse segmento industrial é maior do que o mesmo volume para os produtos básicos. Em 2009, a exportação de US$ 67,5 bilhões em manufaturados demandou cerca de 2,53 milhões de postos de trabalho (média de 37.521 empregos por bilhão de dólares). A exportação de US$ 62,2 bilhões de básicos demandou dois milhões de trabalhadores (32.028 empregos por bilhão de dólares exportado). Portanto, para cada bilhão de dólar em exportações de manufaturas, são criados 5,5 mil postos de trabalhos adicionais (ou mais 17,2%) em relação ao mesmo valor exportado na categoria de produtos básicos. O balanço de empregos permite aferir os danos à economia brasileira provocados pela queda das exportações de manufaturados.

Na proporção em que produtos importados ganham espaço no mercado nacional, criam-se em outras nações os postos de trabalho que poderiam ser gerados internamente. Tal situação não faz justiça ao empenho de nossas indústrias de investir em tecnologia, qualidade e produtividade. Nestes aspectos, são vencedoras. Intramuros, sua produção é tão ou mais competitiva do que a de qualquer outra. Porém, enfrentam os juros reais mais altos do mundo, tributos de 37% do PIB, moeda muito apreciada, inflexível regulamentação trabalhista, carência de logística e infraestrutura, complexidade da legislação e morosidade da Justiça. É preciso encontrar soluções para inverter esse quadro, a começar por urgente revisão do câmbio. Se prolongada, sua sobrevalorização agravará ainda mais a balança comercial da indústria e impedirá a criação de empregos em volume compatível com o potencial do Brasil.

*João Guilherme Sabino Ometto, engenheiro (EESC/USP), é vice-presidente da Fiesp, presidente do Grupo São Martinho e membro do Conselho Universitário da Universidade de São Paulo (USP)